Quando Paulinho, atendente noturno da Pousada Brisa da Serra, falou que muitos hóspedes iam e voltavam de Bichinho a pé, eu nem hesitei. E tudo que eu conseguia pensar no percurso enlameado pela chuva era como diabos eu tinha me metido nesse programa de índio.
A cada curva a minha vã esperança de avistar uma casinha que fosse se renovava, só para ser destruída pela vista de mais uns quilômetros de pura subida.
Eu nem tenho noção de distância nem nada. Mas tenho certeza de que a placa de 6 km era mentirosa. De Tiradentes a Bichinho são 50km, sem dúvida nenhuma!
Enfim, enquanto Paulinho, carinhosamente apelidado de pescador, ia desfilando uma incontável série de estórias que fariam o protagonista de Peixe Grande ficar estarrecido, em algum momento, eu me esqueci do motivo que me levara até ali e simplesmente me deixei sorrir dos "causos". Não que ele fosse um Riobaldo, ou coisa parecida, mas é que era reconfortante simplesmente ter alguém conversando comigo.
Foi aí que a história ficou perigosa: a bendita vaca. Era uma vaca preta, apartada do seu filhote, e do nosso lado da estrada. Eu avisando: "Paulinho, esta vaca pega". E ele: "Pega nada! Eu sou peão também, conheço de vaca". Bem, não foi o que o vaqueiro gritou para nós, de lá do curral e antes de assustar o bicho: "Cuidado que a vaca pega". Era a vaca preta correndo justamente na minha direção quando tudo o que eu conseguia pensar (entre os gritos, claro) é que esta seria uma morte nada glamourosa.
Da vaca, ficaram as gargalhadas. De Bichinho, uns potes de doce que teriam que ser entregues na pousada, pois eu me recusava a levar qualquer outro peso na viagem de volta. Da estrada, a poeira e a certeza de que ninguém gosta de oferecer carona quando você realmente precisa de uma. Exceto por um fusca empilhado de coisas que gentilmente se ofereceu para nos levar até a pousada que estava a 500 m de onde estávamos. Da jornada, a vontade de viajar com menos peso nas mãos e na mente. Afinal, foram as gargalhadas que compensaram o fato de que, agora, mal posso sentir os pés...
(08/01/2011, ainda viva)
Nossa, que aventura...Uma vaca no seu caminho! Muito divertido seu passeio! Já passei por isto, só que foi na minha infância.
ResponderExcluirBeijos,
Andréia.