domingo, 11 de setembro de 2011

A melhor companhia do mundo

Quem é do interior sabe que o destino fatal do filho é sair da casa dos pais para morar na Capital. Quando eu vim para Belo Horizonte, tinha 17 anos e um topete do tamanho do mundo. Mas a verdade é que morar longe de casa nunca me assustou muito. Eu, no alto da minha independência, achava que sabia tudo sobre ficar só. Claro que essa solidão era muito relativa. Eu dividia apartamento e estudava numa sala com mais 59 alunos. E sempre tive namorado. Emendando um relacionamento no outro, evitando o aprendizado de estar só.

Isso faz 11 anos. Acho que o meu topete diminuiu muito. Bem, talvez nem tanto assim. Mas depois de realmente morar sozinha, casar, me separar e novamente estar morando sozinha, posso dizer que uma coisa eu descobri: descobri a melhor companhia do mundo. Aprendi que adoro domingos livres. Adoro me demorar um pouquinho mais no banho; passar todos os creminhos que quase nunca tenho paciência para usar; dar banho de creme no cabelo com aquela toca ridícula que te faz parecer um pernil no forno. Adoro saber que tem uma taça de vinho bom e um filme bem água com açúcar me esperando numa terça à noite. E andar pelo Mercado Central escolhendo flores e comidinhas para a minha casa.

A verdade é que eu acho que a gente evita um pouco a convivência com nós mesmos. Talvez porque tenhamos medo do silêncio. Aquele preenchido por todas as dúvidas, todos os medos. E talvez porque a gente não aprenda bem, na nossa cultura de autoflagelo, a nos perdoar, a comemorar pequenas vitórias. E as grandes também.

A gente fica esperando que o outro nos preencha de tudo aquilo que nós mesmos deveríamos desenvolver. Que o outro nos dê alegria e nos acolha. Que nos embale nos dias de carência e que entenda a fúria da TPM. Ah, mas se a gente soubesse, se conhecesse esta partezinha nossa, lá no fundo, que brilha... Essa que é reflexo de tudo de divino que temos em nós. Porque a gente não é feito só de espírito de porco, né? Bem, se a gente soubesse, ia descobrir também que nós somos a melhor companhia do mundo. Bom domingo!

segunda-feira, 28 de março de 2011

Num reino distante


Prólogo: Acontece mais ou menos assim: você tem certeza que uma coisa vai dar errado, avisa que vai dar errado antes, fala que vai dar errado durante e se lamenta porque realmente deu errado depois.

Tudo começou numa bela manhã de domingo quando a doce netinha resolveu levar os seus queridos avozinhos e uma fofura de tia-avó freira para um passeio no Planalto para visitar a sobrinha da sua avó. Pra quem não conhece, o Planalto é um reino longínquo nas imediações de um Belo Horizonte. 
A netinha docemente pede o endereço para o seu querido avô, que responde com doçura:
- Querida netinha, não precisa de endereço não. Chegando lá a gente se ajeita.
E a Netinha só pensando no Sir Rafael Lopes que, sabiamente, diria: “Vai vendo...”
Quando chega a entrada do reino, a netinha pergunta:
- E agora, vovô, por qual caminho devo seguir?
O avô novamente responde com carinho:
- Ah, querida, é facinho, facinho... eu sei que tem uma padaria na esquina.
Muitos, muitos, muitos, muitos minutos depois, após os gritinhos espavoridos da doce velhinha tia-avó freira de que “ Não é aqui não”, chegaram, quase vivos, à casa da querida sobrinha da avó. (Vai contanto o parentesco porque daqui a pouco dá tilt).
Quando a sobrinha da avó avisou que iriam almoçar no reino mais distante ainda de Santa Luzia, a netinha sabia: a coisa não ia prestar mesmo! Aqui vale um parênteses: ir para Santa Luzia é como ir no contra-fluxo. Nem quem é de lá quer ficar lá.
Mas, resignada, cumprindo o seu dever de prole da prole, a netinha cedeu e foram, três carruagens entupidinhas de gente, para o centro histórico de Santa Luzia.
Depois de um farto banquete nada regado a vinho, em função da Lei Seca que imperava no reino, a netinha começa a contar os minutos para ir embora. Nisso, a doce e meiga velhinha tia-avó freira grunhe do outro lado do restaurante:
- A gente devia visitar o querido primo sobrinho neto Délio. Ele mora nos arredores deste Reino, em um casebre subindo a floresta.
Nisso, a doce netinha, no auge da sua candura, confidencia ao seu belo primo Sir Thiago: “Vai dá merda!”
E começam a jornada rumo aos arredores favelísticos do Reino de Santa Luzia. E as carruagens foram subindo, subindo, subindo e, quando acharam que chegariam ao Reino dos Céus, subiram mais um pouco e chegaram na morada do Sir Boca. Boca de Fumo.
A visita durou apenas três ameaças de morte ao Sir Valter, marido da filha da sobrinha da avó (vai desenhando pra não se perder), quando a netinha, preocupada com a segurança de todos, avisou categórica:
- Vamos agora guiados por este instrumento mágico chamado GPS.
(Para quem não conhece, o GPS é um instrumento de precisão guiado pelos astros e que só funciona quando você sabe exatamente para onde vai.)
O instrumento mágico, enfeitiçado pela bruxa Google, levou os nossos viajantes para um matagal ainda maior, que desafiou os bravos cavalos da carruagem e deixou todos, principalmente o Sir Valter, irritados.
Na volta à casa da sobrinha querida da avó, um único assunto pairava: a culpa foi da netinha com o seu GPS. Não da freira que inventou o passeio. Não do raio do primo sobrinho neto tio que morava nos cafundós. Não dos cavalheiros do crack, nem das damas da noite que habitavam o Morro. Mas do GPS da netinha que, bem ou mal, guiou todos quase sãos e salvos para longe do reino amaldiçoado de Santa Luzia.
Foi por isso que, na volta da visita, mil duzentas e trinta e cinco piadas sem graça depois, tudo o que a doce netinha conseguia murmurar era:
- Quem der mais um pio sobre o GPS, morre! Incluindo a freira.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Depilação a laser ou Para mulheres

A menina da depilação a laser me olhou muito assustada quando eu disse, com voz de Don Corleone: “Nem mais um raio, mocinha! Pode parar por aqui!”. Só quem já fez uma sessão sabe do que estou falando. Mas a verdade é que eu tenho uma tolerância danada a dor. Sou do tipo que cochila em massagem redutora ou que não se importa com injeções.
Mas ontem foi diferente. Ontem eu achei um desrespeito aceitar a dor com tanta naturalidade. E fiquei pensando no quanto admitimos esse tipo de desrespeito na nossa vida. Começa com coisas simples: sobrancelha a ser pinçada, depilação com cera, estômago roncando diante da sobremesa proibida. E a coisa não para por aí. Quando você assusta, admite outras dores bem mais intensas: uma grosseria inesperada, uma falta de atenção, uma falta de carinho, um desrespeito. A gente começa a permitir porque está habituado à dor.
É mais ou menos assim: quando eu tive um período bravo de crises de lombalgia que, depois de alguns meses e muitos antiinflamatórios, provou ser uma hérnia de disco, o médico sempre perguntava qual a intensidade da minha dor em uma escala de 0 a 10. Eu olhava pra ele com um olhar suplicante. Eu não me sentia capaz de avaliar simplesmente porque não me lembrava de como era não sentir dor.
Como dizia Marina Colasanti, “a gente se acostuma, mas não devia”.
Foi por isso que a minha consciência não doeu nem um pouquinho quando deixei a clínica antes de terminar a sessão por completo pensando: "Não hoje. Nenhuma dor voluntária hoje".

domingo, 9 de janeiro de 2011

Bagagem de volta

A decisão de ir a Tiradentes veio de uma necessidade: a de fazer alguma coisa, qualquer coisa, que me fizesse pensar menos, sentir mesmo. Claro que 190 km de estrada e dois dias sozinha em uma pousada não são exatamente o remédio para isso. Mas o quarto imenso com ofurô e cama imensa do século XIX me convenceram rapidinho de que, se havia um lugar agradável até para pensar, seria este. Comprei um livro, um vinho (que nem cheguei a tomar) e segui o impulso.
É, Alanis, a vida realmente tem um jeito estranho de ajudar a gente. 
Na bagagem de volta ainda tem um pouco de tristeza, mas tem uma gratidão imensa. Principalmente por eu ter sido capaz de me dar esse presente tão lindo. De perceber que a pessoa que mais merece o meu reconhecimento e o meu amor sou eu mesma. 
Esta viagem veio da necessidade de continuar andando para frente. Porque a vida é feita de escolhas, e a minha é ser feliz...


(09/01/2011, em casa e quase em paz)

Wrong feet

Quando Paulinho, atendente noturno da Pousada Brisa da Serra, falou que muitos hóspedes iam e voltavam de Bichinho a pé, eu nem hesitei. E tudo que eu conseguia pensar no percurso enlameado pela chuva era como diabos eu tinha me metido nesse programa de índio. 
A cada curva a minha vã esperança de avistar uma casinha que fosse se renovava, só para ser destruída pela vista de mais uns quilômetros de pura subida. 
Eu nem tenho noção de distância nem nada. Mas tenho certeza de que a placa de 6 km era mentirosa. De Tiradentes a Bichinho são 50km, sem dúvida nenhuma!
Enfim, enquanto Paulinho, carinhosamente apelidado de pescador, ia desfilando uma incontável série de estórias que fariam o protagonista de Peixe Grande ficar estarrecido, em algum momento, eu me esqueci do motivo que me levara até ali e simplesmente me deixei sorrir dos "causos". Não que ele fosse um Riobaldo, ou coisa parecida, mas é que era reconfortante simplesmente ter alguém conversando comigo. 
Foi aí que a história ficou perigosa: a bendita vaca. Era uma vaca preta, apartada do seu filhote, e do nosso lado da estrada. Eu avisando: "Paulinho, esta vaca pega". E ele: "Pega nada! Eu sou peão também, conheço de vaca". Bem, não foi o que o vaqueiro gritou para nós, de lá do curral e antes de assustar o bicho: "Cuidado que a vaca pega". Era a vaca preta correndo justamente na minha direção quando tudo o que eu conseguia pensar (entre os gritos, claro) é que esta seria uma morte nada glamourosa. 
Da vaca, ficaram as gargalhadas. De Bichinho, uns potes de doce que teriam que ser entregues na pousada, pois eu me recusava a levar qualquer outro peso na viagem de volta. Da estrada, a poeira e a certeza de que ninguém gosta de oferecer carona quando você realmente precisa de uma. Exceto por um fusca empilhado de coisas que gentilmente se ofereceu para nos levar até a pousada que estava a 500 m de onde estávamos. Da jornada, a vontade de viajar com menos peso nas mãos e na mente. Afinal, foram as gargalhadas que compensaram o fato de que, agora, mal posso sentir os pés...


(08/01/2011, ainda viva)

Wrong shoes

Como você identifica alguém que vem a Tiradentes pela primeira vez? Olhe para os seus pés. Os meus, neste caso, ostentavam lindas sandálias de salto anabela que me faziam praguejar a cada dois passos. A situação era tão trágica que eu já estava andando rindo. Riso que, aliás, não pude conter quando a atendente da lojinha de artesanato apontou para uma ladeira imensa ante a minha pergunta sobre o restaurante Tragaluz.
Foi no Tragaluz que o garçom educadamente perguntou se eu esperava alguém. Ele sorriu com compaixão quando eu expliquei que estava sozinha. Contentei-me com uma taça de vinho, já que pedir uma garrafa para uma pessoa apenas me parecia desesperador demais.
Escolhi o filé, contrariando a minha regra pessoal de não comer carne vermelha, e fiquei surpresa ao sentir que a refeição estava simplesmente perfeita. Aliás, (e isto é estranho) o brocólis foi o melhor que já comi na vida. Comi lentamente, também contrariando a regra pessoal de não perder tempo sentindo o gosto das coisas. E, pela primeira vez, realmente saboreei um prato na melhor companhia que podia haver no mundo.
Os sapatos errados me trouxeram ao lugar certo, afinal...


(07/01/2011, viajando sozinha pela primeira vez)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Dia de Poesia

Hoje eu vi uma frase da Clarice Lispector:


"Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar essa pessoa de nossos sonhos e abraçá-la".


Isso me lembra o poema Você e o seu retrato, do Cassiano Ricardo, que também me lembra Dorian Gray, do Oscar Wilde. Eu sempre tive pavor do livro e do poema. E agora com a frase da Clarice, o medo deu lugar a uma reflexão meio dolorida. Daquelas que só algumas lágrimas são capazes de proporcionar. A gente se apaixona pelo sonho, pelo retrato, que, eventualmente, são mais bonitos que a realidade. Embutimos as nossas expectativas nessas figuras estáticas, de uma beleza fria e inútil. E aí a gente começa a sentir saudade. Que bom seria, não é Clarice, se o retrato e o sonho se materializassem e corressem para os nossos braços? 


Por fim, me lembro de um último poema do meu adorado Fernando Pessoa:


"Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para enxergar as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela".