A menina da depilação a laser me olhou muito assustada quando eu disse, com voz de Don Corleone: “Nem mais um raio, mocinha! Pode parar por aqui!”. Só quem já fez uma sessão sabe do que estou falando. Mas a verdade é que eu tenho uma tolerância danada a dor. Sou do tipo que cochila em massagem redutora ou que não se importa com injeções.
Mas ontem foi diferente. Ontem eu achei um desrespeito aceitar a dor com tanta naturalidade. E fiquei pensando no quanto admitimos esse tipo de desrespeito na nossa vida. Começa com coisas simples: sobrancelha a ser pinçada, depilação com cera, estômago roncando diante da sobremesa proibida. E a coisa não para por aí. Quando você assusta, admite outras dores bem mais intensas: uma grosseria inesperada, uma falta de atenção, uma falta de carinho, um desrespeito. A gente começa a permitir porque está habituado à dor.
É mais ou menos assim: quando eu tive um período bravo de crises de lombalgia que, depois de alguns meses e muitos antiinflamatórios, provou ser uma hérnia de disco, o médico sempre perguntava qual a intensidade da minha dor em uma escala de 0 a 10. Eu olhava pra ele com um olhar suplicante. Eu não me sentia capaz de avaliar simplesmente porque não me lembrava de como era não sentir dor.
Como dizia Marina Colasanti, “a gente se acostuma, mas não devia”.
Foi por isso que a minha consciência não doeu nem um pouquinho quando deixei a clínica antes de terminar a sessão por completo pensando: "Não hoje. Nenhuma dor voluntária hoje".